"No início, não existiam os rios. As águas corriam fundo debaixo da terra. Só se ouvia o ronco das águas ao longe, como o de fortes corredeiras. Nenhum ser humano viva ali. Somente existiam seres sobrenaturais, os animais e os irmãos Omama e Yoasi. Certo dia, Omama perfurou o solo da floresta. Em seguida, a água foi se acumulando na terra e começou a correr em todas as direções, formando os rios e os lagos da floresta. Acabou a sede. Nós, Yanomami, somos filhos de Omama e Thuëyoma. Sabemos também que viemos todos do mesmo sangue. Já o outro, chamado Yoasi, na outra margem do grande rio oceano para onde foi expulso, lá, criou a morte. A morte dormia deitada na árvore Potoporisiki. O espírito do tucano chorava nesta árvore, por isso choramos quando alguém morre. Estragou nosso sopro vital e passamos a morrer. Então, Omama enterrou os espíritos maléficos e as fumaças das doenças embaixo da terra com o minério. Por isso, não devemos tirar o minério debaixo da terra. Para não despertar a fumaça de epidemia." Davi Kopenawa Yanomami - "A última floresta" (2021), dir. Luiz Bolognesi que sede industrial ah, me desenterra vou contaminar o ar onde o sol pousar com fumaça e sombra dos rios da serra Como vou me proteger da força das águas? Como vou me recolher das rajadas de sol? o chão vai se desfazer as árvores vão murchar e as pedras vão no calor rachar A terra vai se silenciar Cheia de rancor Pra sua praga despertar me liberta com a barragem rompida toxina solar, corrente apodrecida os resíduos de sangue vão evaporar contaminando a água com sua ferida O chão está a se desfazer E as árvores a murchar Os rios vão desaparecer Debaixo da terra os rios vão desaparecer debaixo da terra os rios vão desaparecer debaixo da terra